Quando iniciei minha carreira, como todo jovem idealista e altamente crítico, era inevitável notar os “erros” nos projetos. Muitas vezes, eu considerava que os profissionais responsáveis por aqueles projetos não eram tão competentes quanto deveriam ser, ou que não possuíam conhecimentos técnicos suficientes. Era comum pensar que aquele trabalho tinha sido realizado por um “sobrinho” em vez de um profissional experiente.
No entanto, bastou um ano de experiência no mercado de trabalho para eu compreender que nem sempre os profissionais envolvidos concordavam com as implementações realizadas. Durante o desenvolvimento de um projeto, diversos fatores interferem diretamente nos resultados:
Tempo: A pressa sempre acaba afetando o resultado final. Nem sempre é possível otimizar todas as etapas do processo, e algumas delas são cruciais para obter resultados satisfatórios.
Pressão: Além da questão do tempo, a pressão exercida pelos clientes e stakeholders muitas vezes leva a um resultado que atende às suas expectativas, independentemente das evidências que apontam para outra direção.
Orçamento limitado: Em algumas situações, projetos que deveriam ser conduzidos por uma equipe acabam sendo atribuídos a uma única pessoa devido a restrições orçamentárias. Com prazos apertados e falta de recursos, essa pessoa pode não dominar todas as habilidades necessárias para o projeto.
Processo: O resultado de um projeto de experiência do usuário é influenciado pelo processo de design, que requer tempo para ser executado adequadamente. Quando tudo é considerado urgente e precisa ser feito para ontem, a importância do processo é negligenciada. A falta de processos bem estabelecidos pode resultar em falhas que afetam a qualidade do projeto.
Ao vivenciar essas situações lá nos meus primeiros anos de carreira, nunca mais critiquei (nem mesmo em pensamento) as equipes anteriores. Não temos acesso aos detalhes que levaram àquele resultado específico. Desconhecemos as circunstâncias enfrentadas pelos profissionais responsáveis:
- O projeto pode ter sido desenvolvido por um número reduzido de pessoas em um curto espaço de tempo.
- Os profissionais envolvidos podem ter sido colocados em posições onde não possuíam conhecimentos especializados, não necessariamente por falta de competência, mas por estarem preenchendo lacunas em áreas que não dominavam.
- Limitações tecnológicas específicas daquela empresa (não necessariamente aplicáveis ao setor como um todo) podem ter afetado o escopo do projeto.
- Interesses conflitantes na camada executiva da empresa podem ter interferido na priorização do que realmente precisava ser feito.
- A falta de recursos financeiros suficientes pode ter impactado a qualidade do projeto.
Portanto, ao avaliar projetos, nunca busco culpados ou critico resultados sem compreender o contexto. Infelizmente, nem sempre é possível obter todas as informações necessárias para uma compreensão completa.
Por isso, sempre digo: não devemos criticar nossos colegas de profissão. Especialmente quando não conhecemos todos os fatores que contribuíram para o resultado final. O importante é focar em melhorar o produto ou o projeto e deixar o passado para trás.
Fomentar um ambiente de busca por culpados é extremamente prejudicial à inovação e à colaboração. Em breve, escreverei outro artigo sobre a cultura de colaboração e inovação. É claro que também pode acontecer de nem sempre terem sido escolhidos os melhores profissionais para determinado projeto, mas essa é uma questão à parte.
O objetivo aqui é simplesmente dizer: não vamos criticar aqueles que estiveram antes de nós. As pessoas cometem erros e, dependendo das circunstâncias, nós mesmos poderíamos ter cometido os mesmos equívocos. Devemos nos concentrar em melhorar os resultados e permitir que os profissionais envolvidos sigam em suas carreiras. Afinal, amanhã, poderemos ser nós os avaliados pelos mesmos erros. Vamos exercer empatia entre nós, colegas de profissão, não apenas em relação aos usuários. Nunca sabemos quais problemas os outros tiveram que enfrentar em seu percurso.
